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Boca cheia de formiga


Lembro que a família já estava formada, mas a casa ainda não. Já éramos quatro, mas nosso lar, apesar de aconchegante, não tinha piso, as paredes ainda estavam por pintar e um banheiro já tinha virado depósito de sobras de material de construção.

No lado de lá da nossa rua morava um casal de idosos. Dona Damiana e seu Joaquim. Sua pele ressequida do sol forte do sertão ia enrugando em camadas que deixavam ambíguos os sinais emotivos mais evidentes. Não dava para saber se ele estava exatamente triste ou alegre ou mesmo reflexivo. Em geral, nunca dá para saber exatamente.

Mas era muito agradável ouvi-lo falar, mesmo que eu não entendesse algumas palavras, afinal eu era uma criança e ainda não detinha o conhecimento de certas metáforas do mundo adulto que de tão gastas viram boba realidade. Outras coisas eu não entendia mesmo pois a acentuada falta de dentes na boca de seu Joaquim não permitia os sons saírem com clareza.

Dona Damiana era muito gentil e sempre nos trazia uma caneca d’água bem geladinha tirada do pote de barro. Seu Joaquim era vigia da escola que ficava em frente da nossa casa. Antes de ele tomar banho e se preparar para o trabalho, ficávamos conversando na calçada de sua casa. Eu praticamente não falava, só ouvia. Mas mesmo assim, seu Joaquim emendava o conselho mais certo que há, segundo suas palavras.

“Deus deu uma boca e duas orelhas pra gente mais ouvir que falar. Nunca esqueça isso.”

Contava muitas histórias, algumas fantasiosas sobre bolas de fogo que apareciam no meio do matagal, outras sobre como ele era conquistador na sua juventude. E, sobretudo, ele me botava um guizo no juízo com aquilo que era o prato principal de nossas conversas, as adivinhações.

Eram muitos os desafios que ele lançava e que necessitavam de um conhecimento das coisas, de uma certa malemolência que uma criança como eu dificilmente teria.

Lembro quando meu pai chegou certa vez com a planta do que viria a ser nossa futura casa. Aquilo me desafiou profundamente de início pois era impossível inferir o que vem a ser uma planta da casa quando se é uma criança. Qual não foi minha surpresa quando me dei conta de que se tratava de um papel meio translúcido com muitos traços e números. Aquilo era uma planta.

Numa dessas noitinhas, ele sentado numa cadeira de madeira com o assento feito de couro de cabra e eu sentado no parapeito da casa, soltou a adivinhação mais cara e mais perturbadora de que me lembro.

“Qual é o nome do morto que anuncia o vivo?”

Eu levava muito a sério a tarefa de desvendar o sentido daquelas adivinhações, mas não formei carreira pois meus palpites e intuições eram desajustados. Eu coçava a cabeça, mordia os lábios, balançava as pernas, fechava os olhos e, ao final, lançava qualquer coisa na esperança de ter pelo menos chegado perto.

O pior de tudo era que seu Joaquim não rifava a resposta tão rápido assim. Às vezes, eu voltava para casa sem saber a resposta do desafio. Essas noites eram as piores. Muitas vezes eu fingia estar prestando atenção à TV quando nos reuníamos na sala para jantar, mas só pensava em alguma relação que me ajudasse na solução.

Reunindo um tanto de coragem para falar, pois eu era muito tímido, eu chegava a perguntar para meu pai. Algumas delas ele sabia e me dava a resposta, mas eu desconfiava que não poderia levar assim tão barato a solução para o seu Joaquim, ele iria desconfiar que tive ajuda e que não teria me esforçado.

Mas meu pai também não sabia a resposta dessa.

“Qual o nome do morto que anuncia o vivo?”

No outro dia, como habitualmente, me levantei para ir ao colégio e da rua vinha um burburinho. Fomos todos lá fora ver o que era. Aquela quantidade de gente na rua não era um bom sinal, parecia montinho de briga depois da aula, pois tinha muitos alunos fardados ali também. Mas tinha mais gente, toda a rua estava ali, cabisbaixa, com mãos cruzadas para trás.

Abri o portão de ferro e ouvi de cara alguém falar.

“Amanheceu com a boca cheia de formiga”

Alguém falou e eu não acreditava, não entendia, não assimilei. Seria aquilo outra adivinhação em escala maior que me lançavam? A frase não me dizia absolutamente nada. O que acontece quando alguém amanhece com a boca cheia de formiga?

Meu pai fora direto, como quase sempre.

“Seu Joaquim morreu. Termine de se arrumar pra não se atrasar pra escola.”

Seu Joaquim fora encontrado morto no chão logo ao lado da cadeira que ele usava para passar as madrugadas de vigília. Infarto fulminante.

O que acontece quando as pessoas morrem? Elas deixam de fazer adivinhações? Elas adoecem gravemente? Não, disse meu pai, quando a pessoa morre, ela não existe mais.

Essa palavra, esse conceito entrou nas minhas ideias da forma mais penosa possível. Seu Joaquim não existia mais. Não haveria mais adivinhações, nem longas conversas à tardinha na sua calçada, sequer a resposta para aquela adivinhação.

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